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CRENÇA

Tem gente que acredita
Que rio corre pra cima
Que o sol brilha de noite
...
Menino vira menina
E que vereador na câmara
Vota sem levar propina.

Por outro lado, tem gente
Que só faz o que compensa
E de forma pragmática
Fortalece a velha crença
De que vereador sem propina
Nunca faz a diferença.

Autor Convidado: Silvio Prado

SEU CORPO


O seu corpo certamente
Como corpo de mulher
Deve ter tanta armadilha,
Tudo que um homem quer
Pra nele ficar perdido
E da vida esquecido
Pelo tempo que puder.


Autor Convidado: Silvio Prado

Tinoco morreu e levou consigo os ultimos traços de uma música caipira realmente respeitavel e honesta

A morte de Tinoco é a morte de um certo tipo de ingenuidade que caracterizou a chamada música caipira. Hoje, com a imbecilidade extremada da chamada música sertaneja de mercado, o que se vê é um desfile de mercadorias sonoras, verdadeiros ruidos sem lógica e sem arte, tomando todas as emissoras de rádio e tevê e fazendo a fortuna de meia duzia de duplas e empresários.
O Brasil, tão rico musicalme...nte, depois de consumar o seu processo de urbanizaçao não conseguiu firmar na sua música de origem rural os valores que antes prevaleciam nas canções mais simples de gente notavel como Tonico e Tinoco. Infelizmente, o que se ouve todo dia são aberrações sonoras e idiotizadas. Enquanto o país se desdobra para dar passos na direçao de uma verdadeira democracia, as emissoras de radio m...antém uma programaçao que visa imbecilizar o povo e retira-lo do centro da luta por transformaçoes reais. dentro desse ponto de vista, as duplas ecantores sertanejos atuais, sem nenhuma inocencia, mas de olho apenas nos resultados do mercado da música, cumprem rigorosamente seu papel.
A dupla dom e ravel, severamente criticada por fazer "hinos" de louvor a ditadura não foi tão malefica ao país como sao hoje a maioria das duplas e cantores que se dizem sertanejos. num pais de baixa escolaridade e onde o analfabetismo funcional é crônico, a música sertaneja aparece como sua trilha sonora ideal.
Tinoco morreu e levou consigo os ultimos traços de uma música caipira realmente respeitavel e honesta. Ele, infelizmente, não deixa herdeiros,mas uma enorme fila de picaretas e oportunistas produtores de ruídos dispersivos e alienantes.

Autor Convidado: Silvio Prado

Bernardianas - 3


 Trinta anos de Bernardo
Dizem ser data festiva
Com gente soltando fogos
...
E um milhão de convivas
Comendo bolo chinês
E muito mané dando viva.

Trinta anos de Bernardo
Nesta cidade intranqüila
Que apesar de industrial
Do Bernardo é uma vila
Que sempre botou o povo
Para sofrer numa fila.

Trinta anos de Bernardo
No céu explode rojão
Enquanto na Desembargador
Abriu-se outra vez o chão
Depois que uma chuva fina
Pôs fora a tubulação.

Autor Convidado: Silvio Prado

Pela verdade

A revolução redentora
Dos milicos do Brasil
Não aconteceu em março
E não foi nada varonil
Tendo como data histórica
Um primeiro de abril.

Temendo uma revolução
De caráter comunista
Uma gente bem fardada
E totalmente entreguista
Botando tropas na rua
Passou o país em revista.

E depois o que se viu
Foi uma triste aventura
Em que a vida democrática
Sob os ferros da tortura
Conheceu de perto a dor
Que brotou da ditadura.

E foi assim desse jeito
Com tanta proibição
E muita gente sumida
Sob brutal repressão
Que um golpe militar
Se chamou revolução.

E foi proibido pensar
Pensamento diferente
Do que pensavam as fardas
De um general ou tenente
Que criaram no país
Situação tão deprimente.

Em tempos de guerra fria
Instalou-se a ditadura
E pra que ela funcionasse
Não se abriu mão da censura
E muito menos do recurso
Sempre brutal da tortura.

Com o país enquadrado
Sob as ordens desse fato
Não podia o operário
Temendo um duro destrato
Tocar sua luta em frente
Através de um sindicato.

Nem podia na escola
Como muito se fez antes
De forma sempre altiva
Através dos estudantes
Repensar a educação
Sem projetos alienantes.

O que foi visto na escola
E também no sindicato
Viu-se na literatura
Na imprensa e no teatro.
Também música e cinema
Amargaram esse destrato.

Mas felizmente, o país
Tem uma tradição de luta
E mesmo que o regime
Exigisse outra conduta
Muita voz se levantou
Contra tanta força bruta.

E foi preciso coragem
Para encarar a ditadura
De generais insensíveis
Entregues a triste loucura
De reduzir nossa terra
À tão desastrada aventura.

Se eles queriam silêncio
E também submissão
Do povo então receberam
Quase sempre uma lição
Às vezes pela rebeldia
Vinda em forma de canção.

E cantando a canção
De um país dilacerado
Com a voz da esperança
Olhando sempre de lado
O povo não perdeu o foco
Do amanhã aguardado.

E lutando como pode
Na construção desse dia
Enfrentou tamanho horror
Mas expressou sua rebeldia
Afugentando a escura noite
Que a ditadura exigia.

Muitos dentro da fábrica
E pelos bairros da cidade,
Na imprensa alternativa
E campus da universidade
Ou pela guerrilha no campo
Não renunciaram a verdade.

Mas como diz o ditado,
Pingo d’ água em pedra dura
De tanto seguir batendo
Tanto bate até que fura
E, o povo, de tanto bater,
Pôs no chão a ditadura.

Já passado esse tempo
De muita dureza e tensão,
Ainda se vê agora,
Cheias de apreensão,
Fardas pedindo silêncio
Sobre uma grave questão.

E a questão colocada
Não possui nenhum sentido
Porque o Brasil não pode
Se fazer de esquecido
Das centenas de seus mortos
E tanto desaparecido.

Porque se hoje a nação
É uma democracia
Não tem porque ocultar
Em nome da anistia
Muitos crimes cometidos
E tanta selvageria.

Pois todo o país pergunta:
Qual foi o destino dado
Ao lutador Rubens Paiva,
Homem digno, deputado,
Diante da própria família
Numa noite seqüestrado?

Como pode haver silêncio
Se na memória da nação
Percorre o grito angustiado
Exigindo a informação
Que possa levar ao corpo
Do comandante Osvaldão?

Onde estará a ossada
Do estudante guerrilheiro
E também do operário ,
Outro anônimo brasileiro,
Que reagindo à ditadura
Teve estranho paradeiro?

E se perguntas são feitas
Precisam ser respondidas:
Por que tão tristes verdades
Precisam ser escondidas?
E quem seqüestrou, torturou,
Pondo fim a tantas vidas?

Por que exigir silêncio
Se grita a nossa memória
Pedindo outra leitura
Dos atos de uma escória
Que ensangüentando o país
Fez atrasar nossa história?

Nada de fazer silêncio
Deletando do passado
Sombrios porões da tortura
Onde Fleury, o delegado,
Cometeu monstruosidades
Protegido pelo Estado.

Pois é injusto e incorreto
Usar da lei da anistia
Livrando torturador,
Gente assim tão doentia,
Que à sombra do Estado
Cometeu selvageria.

No Chile e no Uruguai,
E na Argentina também,
Quem torturou e matou
Ou deu sumiço em alguém
Hoje enfrenta a justiça
E sofre a pena que convém.

Em nome da democracia,
Não importando a patente,
Lá se puniu o general,
O brigadeiro e o tenente
E a nação, passada a limpo,
Segue sua vida em frente.

Porém, aqui o discurso
De muito sujeito fardado
É que o país corre risco
E corre risco o Estado
Se tanto crime cometido
Algum um dia for julgado.

E todo dia uma voz
Escapa de algum porão,
Pressiona e bota medo
Como se nossa nação
Não resistisse à verdade
E preferisse a escuridão.

Mas até quando o país
Vai suportar a impostura
De jamais poder punir
Os agentes da tortura
Que seqüestraram e mataram
Em nome da ditadura?

Até quando nossa terra
Que se diz democracia
Continuará evitando
Que se ponha à luz do dia
Os fatos de uma história
Cheia de selvageria?

Que tudo seja contado
Sem qualquer hipocrisia
E os valentões da tortura
Enfrentando a luz do dia
Possam ser sentenciados
Sem as bênçãos da anistia.

Que a justiça seja feita
E a grandeza da verdade
Toque o coração da história
Transformando a realidade
Não permitindo entre nós
Torturador na impunidade.

E que todo arquivo oculto
Seja ao povo revelado
Pra que todo documento
Hoje em posse do Estado
Em público possa ser lido
E jamais ignorado.

Autor Convidado: Silvio Prado
 

FINALMENTE...


Finalmente aconteceu
Um fato tão aguardado:
Rodson Lima, o violeiro,
...
O menestrel do Mercado
E piloto de ambulância
Ainda ontem foi cassado.

Nossa Justiça tão falha
Agora acertou a mão
Mandando para o estaleiro
Para sofrer corrreção
Um vereador incapaz
De exercer sua função.

Folclórico como a nossa
Conhecida Barriguda,
Agora fora de cena
E queimado como o Arruda,
Será que ele tem conserto
Ou o Rodson nunca muda?

Senhor de tantas mutretas
E até de um “principado”,
Quanta coisa ele não fez
Deixando o povo abismado
Com sua desenvoltura
Em fazer o que é errado.

A justiça com esse ato
Por certo abriu a porteira
Pondo Rodson na frente
Iniciando uma fileira
De políticos ficha suja
Que devem ir pra lixeira.

Diante do acontecido,
A cidade espera mais:
Que muita gente na câmara
Bem depressa siga atrás
Levando inclusive o prefeito,
Homem que aprontou demais.

Autor Convidado: Silvio Prado

MULHERES

Quem sonha em construir um mundo melhor que o nosso, não peça conselho aos homens, mas abra coração e ouvidos unicamente às mulheres, apenas a elas, sem excluir nenhuma.

Que todas as mulheres sejam ouvidas: a que está na sala de aula, ou dirige uma vã no trânsito tumultuado da grande cidade. Ouça também a mãe   que alimenta o filho, enquanto se prepara para voltar ao trabalho.

Fale com a enfermeira que deixou seu plantão noturno, com a balconista do supermercado, com a atriz de teatro ou a senhora que faz trabalho voluntário numa creche distante.

Precisam ser ouvidas as professoras, sempre tão sonhadoras, mas hoje tão angustiadas pelos ataques permanentes sofridos pela educação  em países como o nosso.

Para construir esse mundo  novo, é necessário que sejam ouvidas as anônimas trabalhadoras que plantam arroz nos campos do Vietnã e as que colhem frutas em fazendas chilenas.

Converse, na África, com aquelas que, há anos, resistem às guerras tribais estimuladas pelos interesses do imperialismo, inclusive as que vivem a vida triste nos campos de refugiados.

Fale com a moça que passeia glamourosamente por alguma rua de Paris, ou , como imigrante clandestina, se esconde dos olhos da polícia italiana.

E preciso ouvir todas, inclusive as mulheres que colhem castanhas na Amazônia ou as que dançam frevo no carnaval de Recife, as que escrevem poesia ou elaboram sofisticadas teses na academia.

Quem quiser mesmo construir um mundo novo, precisa ouvir as mulheres duramente discriminadas no Afeganistão e qualquer outro lugar onde o peso da mão masculina oprime sem receios

Muito tem a dizer as mães e avós da Praça de Maio, na Argentina, e as mães, esposas, irmãs e filhas de desaparecidos políticos brasileiros e de todos os lutadores que pelo mundo inteiro enfrentaram e ainda enfrentam ditaduras sanguinárias.

Não podem ficar caladas e anônimas aquelas que estão nas fábricas e campos ouvindo ordens de produção cada vez mais estressantes.

Que na feitura de um mundo novo, a experiência da mulher seja mil vezes mais considerada que qualquer palavra ou conceito emitidos pelo homem pois é ela quem dá a vida e com imensa ternura a sustenta.

As mulheres, os fatos provam, têm nada ou pouco a ver com a monstruosa história que criamos. Não foram elas as inventoras da terrível lógica do “olho por olho dente por dente” e nem, em nome dos interesses escusos do capital, forjaram inimigos artificiais para depois inventar guerras e dominações sobre povos.

Não foram elas que inventaram e jogaram bombas atômicas sobre o Hiroshima e Nagasaki, e nenhuma comandou tropas e deu ordens de extermínio nas duas grandes guerras mundiais.

Elas não inventaram mísseis, granadas, fuzis, minas terrestres ou armas de destruição em massa e nem campos de concentração. Não foram elas as criadoras do Tribunal da Inquisição onde, em nome de Deus, muitos morreram sob tortura e queimados em fogueiras públicas.

Elas não estiveram à frente do extermínio de populações indígenas e não sujaram as mãos no tráfico que escravizou e vendeu milhões de seres humanos da África para as Américas.

As mulheres jamais criaram formulas e meios que desinventaram a vida. Portanto, quem sonha criar um  mundo novo ou ao menos humanizar o que temos, necessita aprender a ouvir e viver atento aos sonhos e gestos da mulher.

Autor Convidado: Silvio Prado


Pinheirinho, a luta continua

Não seja besta a polícia
De impor sua repressão
Nas terras do Pinheirinho
Onde existe a união
De sem-teto e toda gente
Um povo quase irmão
Disposto a dar sua vida
Em defesa de seu chão.

Essa polícia sacana
Matadora e truculenta
Se entrar no Pinheirinho
Nosso tranco não agüenta
Em meia hora de luta
Ela logo se arrebenta
Mesmo que use escopeta
E o famoso spray pimenta.

E vai ter tanto “policia”
Com o beiço arrebentado
Canela e joelho sangrando
E o “zóio” revirado
Depois da carga feroz
Que chegou de todo lado
Por estilingue certeiro
Sabiamente manejado.

Policial de farda nova
E com pose de machão
Depois de uma estilingada
O bicho se encolhe no chão
Berrando feito criança
Com o saco preso à mão
Tentando matar a dor
Que arrancou o seu tesão.

E um tenente insensível
Pede que ele se levante
E vá enfrentar os sem-teto
Mesmo no preciso instante
Quando um belo Molotov
Explosivo e arrepiante
Queima mesmo até a cueca
Desse oficial petulante.

E segue assim a batalha
Em que jagunço fardado
Usando arma moderna
Custeada pelo Estado
Conheceu bem de pertinho
O sem-teto desprezado
Que mostra com sua luta
O quanto está preparado.

Nessa batalha impossível
E com armamento maluco
O povo do Pinheirinho
Como se jogasse truco
Trata o choque da policia
Que sai correndo sem lucro
Pra esconder sua vergonha
Talvez lá em Pernambuco.

E assim se faz a luta
Pra defender o seu chão
Usando rústicas lanças
Estilingues de montão
Porretes pontiagudos
Pregos e até vergalhão
E como arma de fogo
Foguetório de rojão.

É desse jeito que luta
Contra tropas do Estado
Com soldado escolhido
Depois de muito treinado
Arma moderna na mão
Escudo bem desenhado
Verdadeiro cão feroz
Devidamente amestrado.

Se mandar bater pesado
Ele bate com tesão
Mesmo que algum amigo
Um parente ou irmão
Estejam do outro lado
No interior da ocupação
Lutando por seu direito
Defendendo sua razão.

Para defender ricaços
E o direito à propriedade
O soldado que mal ganha
Pra manter sua integridade
Violentando a si mesmo
Age com severidade
Cumprindo a ordem burra
Vinda de uma autoridade.

É uma pena que a policia
Faça assim papel tão feio
Obediente à ordem injusta
E mostrando pra que veio
Sem vergonha de usar
A violência como meio
Arrepiando gente pobre
Jamais lhe dando recreio.

Felizmente, nem um tiro
Ou certeira bordoada
E nem mordida de cão
Que estava programada
No Pinheirinho se viu
Pois a (in)Justiça acuada
Cancelou por algum tempo
A batalha encomendada.

Mas é preciso dizer
Em cordel e ficção
Que o povo do Pinheirinho
Da luta não abre mão
Mesmo que o Estado burguês
Usando uma falsa razão
Use a justiça e a policia
Como armas de pressão.

Mesmo que o tal de Cury
E muito juiz sem juízo
Assinem leis e decretos
Que só trazem prejuízo
O povo do Pinheirinho
Vai fazer o que é preciso
Resistindo bravamente
Sempre de modo conciso.

Armado de pau e pedra
Foguetório de rojão
Estilingues atrevidos
Muito caibro e vergalhão,
Além de contar com apoio
De toda a população
Só a vitória interessa
Contra a especulação.

E lutando pela terra
E também por moradia
Essa gente lutadora
Busca uma democracia
Que ultrapassando o voto
E a banal demagogia
Enquadra quem no poder
Só governa à revelia.

E sustentar essa luta
Contra um inimigo insano
É coisa que todo pobre
Deve fazer sem engano
Pois se trata de uma luta
Que atravessa todo ano
Pra derrotar quadrilheiros
E todo bandido tucano.
Autor Convidado: Silvio Prado 

FINALMENTE, UM ANO NOVO

Que esse ano novo
Seja novo de verdade
E seja também livre da estreiteza
E prisão dos calendários.

Que seja repleto de ventos novos
Criando tempestades impossíveis
Varrendo assim da face da terra
E da fisionomia dos homens
O medo de viver sua humanidade plenamente.

Que no correr desse ano, nenhum tiro seja dado
E as guerras sejam desinventadas. Que a fome não festeje
Sua vitória no rosto sem vida dos indefesos. Que toda criança
Possa se deliciar com as letras das histórias mais humanas
E sempre tenha diariamente o abraço do pai
E o beijo noturno da mãe.

Seja sempre novo esse ano que começa. E o que for plantado no campo
Não ande quilômetros inúteis para ir até mesa de quem plantou.

Que toda escola tenha educação e todo hospital, em nome da medicina,
Cancele seu desejo de ter lucros.

Que esse ano novo
Seja suficientemente novo
E uma de suas  novidades seja o profundo senso de justiça
Que brotará até nas pedras das ruas mais desertas.

E sendo novo como nenhum outro ano foi,
Que os operários tomem para si todas as fábricas
E façam banquetes de felicidade
Em toda linha de produção.

Que, das fazendas, as cercas sejam arrancadas e toda terra seja livre
Para o trabalho necessário e o fruto até agora impossível.

Sendo tão originalmente novo esse ano,
Que nas igrejas, Deus, finalmente, seja recebido
E compartilhado no altar principal.

No correr de seus dias
Que ninguém se espante de ouvir crianças
Se deliciando com Mozart ou afinando sua alma
Para as notas irretocáveis de Milton Nascimento
Ou resgatando  sonoridades perdidas.

Que ninguém acredite que seja truque de cinema
A água que correrá limpa em todos os rios e nem artifício de algum demônio
O riso incomparável de um índio caminhando nu pela imensa floresta renascida.

Que Jesus e Marx, dialogando com os melhores sonhos do homem, estejam em todas as estantes e salas de leitura.

Enfim, que esse ano não termine nunca e seja eterno como o fogo incontrolável das caricias antes proibidas ou infinito como a memória do primeiro beijo.

Que ele não termine nunca pois não  pode ter fim toda visão de felicidade construída pela mão e pelos sonhos mais humanos.

Feliz 2012 para todos

A felicidade da espécie humana depende dos que ainda sonham e lutam por justiça. Que continuemos sonhando e lutando por justiça!

Autor Convidado: Silvio Prado

O LADRÃO E O PALHAÇO

Olha, senhor lambe botas
...
É bem melhor ser palhaço
Do que ser uma outra coisa
Que só provoca embaraço
Dando ao povo prejuízo
Provocando estardalhaço
Quando ataca cofres públicos
E grana leva de maço.

Eu seria com orgulho
Mas não sou palhaço não
Gente astuta e sensível
Trazendo na expressão
Um universo de alegria
Não importando a ocasião
Bem diferente de gente
Que na política é ladrão.

Autor Convidado: Silvio Prado

Clínica Veterinária

Outro dia um taubateano
Pobre e desamparado
Precisando com urgência
Receber algum cuidado
Esteve no pronto-socorro
E ficou decepcionado.

Levado por um vizinho
Chegou lá do Ipanema
Com o peito apertado
Respiração com problema
Já achando que São Pedro
Ia tirá-lo do esquema.

O homem passou a noite
E a manhã do outro dia
Deitado no corredor
Dividindo sua agonia
Com um outro paciente
Que como ele gemia.

Mas não somente os dois
Viviam essa humilhação
Em pleno pronto-socorro
Sem socorro e solução
Como se objetos fossem
E não fossem cidadãos.

Eram tantos os humilhados
Largados daquele jeito
Pelo corredor afora
E pelo espaço estreito
Onde coubesse uma maca
E não coubesse um direito.

Havia gente encolhida
Curtindo dor e aflição
Na amargura da espera
E não vendo solução
Rosto triste inclinado
Preso à sujeira do chão.

Se não bastasse a doença
Doendo na sua feiúra
Aquele prédio tão feio
Mal cuidado na estrutura
Chegava a dar impressão
De ser uma pré-sepultura.


E o homem se lembrou
Vivendo aquele  momento
De um fato absurdo
Trágico acontecimento
De mortes ali ocorridas
Pelo mal atendimento.

A tragédia virou notícia
E acabou pegando mal
Pois a casa em questão
Fica num ponto central
Menos de  trezentos metros
Da prefeitura local.

Sob a dor do abandono
Ao homem veio a certeza
De que gato ou cachorro
Recebem maior presteza
Em clínicas veterinárias
Que ficam na redondeza.

Pensou então que se fosse
De algum proprietário o cão
No corredor não ficaria
Quando sua respiração
Estivesse presa ao peito
Sufocando o coração.

Por certo teria alguém
Com extremada atenção
Rigoroso no horário
De sua medicação
Direito negado a ele
Mas conferido a um cão.

Mas que fazer se ele era
Um cidadão taubateano
Espécie tão acostumada
A viver tomando cano
Nesse tal pronto-socorro
Em qualquer dia do ano?

De que valia ser gente
Com direito assegurado
Se na hora da verdade
A lei é posta de lado
E até em pronto-socorro
Tem-se o direito negado.


E então avaliando
Sua saúde tão precária
O homem pediu ao vizinho
Uma coisa temerária:
Na próxima crise me interne
Numa clínica veterinária.

Autor Convidado: Silvio Prado

O PREÇO DA SACANAGEM (OU SEJA,DA PASSAGEM)


A câmara e a prefeitura
Por certo levando vantagem
Prometem para novembro
Uma outra sacanagem
Aumentando no transporte
O preço de sua passagem.

Senhora de tanta grana
A ABC não se contenta
Pois a passagem de hoje
Custando dois e quarenta
Com o aumento combinado
Vai custar dois e oitenta.

Essa nova investida
Que só enriquece a empresa
Coisa velha como a roda
E sem mostrar sutileza
Outra vez ferrando povo
Não traz nenhuma surpresa.

O aumento dado agora
Traz muita  indignação
Pois o preço da tarifa
Ao sofrer elevação
Traz com ele um reajuste
Bem maior que a inflação.

E mesmo sendo votado
E visto como legal
O preço aqui em questão
Como é tradicional
Mesmo amparado na lei
Não há dúvida, é imoral.

Se transporte é direito
Inerente ao cidadão
Não pode uma empresa
Botar sob exploração
Um serviço que é público
E provocar exclusão.

Todo preço de passagem
Devia ser controlado
Ou não ter preço nenhum
Sendo que é função do Estado
Garantir o ir e vir
Sem a lógica do privado.

Mas o poder da empresa
E as razões do capital
Botam câmara e prefeitura
Encerrados num bornal
E fazem do preço abusivo
Uma prática habitual.

Em trajetos tão pequenos
O preço está  mesmo abusivo
Não havendo integração
E nenhum outro motivo
Que justifique um valor
Que para o povo é lesivo.

O que se cobra obedece
A um plano irracional:
Paga-se andando pouco
E também andando mal
Por trajetos diferentes
Paga-se um preço igual.

Quem sai da Gurilandia
Indo até o Santa Teresa
Desembolsa igual valor
De quem vem da Baroneza
E desce na Epaminondas
Ou em sua redondeza.

O mesmo preço se paga
Para ir ao Imaculada
Saindo da Rodoviária
E andando quase nada,
Preço igual e semelhante
De quem vai ao Esplanada.

E sempre pagando caro
Segue o povo mal servido
Em ônibus que vai pelas ruas
De um jeito conhecido
Soltando da lataria
A cada metro um gemido.

Pela tal hora de pico
O que se vê em toda linha
É o pobre taubateano
Numa angústia que definha
Em busão superlotado
Igual lata de sardinha.

E o muito que se paga
Só garante o desconforto
Com passageiro espremido
Sufocado e meio torto
Torcendo pra ficar vivo
E não chegar em casa morto.

Esse povo ensardinhado
Em voz baixa até reclama
Mas ninguém lhe dá ouvidos
Enquanto empresário mama
E os que governam essa terra
Se afogam em mar de lama.

Vai um dia que esse povo
Tratado como boiada
Resolva romper as cercas
Bloqueando rua e estrada
Exigindo que outra empresa
Faça aqui sua empreitada.

E de forma contundente
Tendo mais de um motivo
Que ele exija pra si mesmo
Um controle imperativo
Da política de transportes
Incluindo o Alternativo.

E quebrando o monopólio
Que lhe é prejudicial
Que a cidade então opere
Esse serviço essencial
Atendendo a todo mundo
Sem ter preço desleal.

Autor Convidado: Silvio Prado


FAROESTE TAUBATEANO

No bang bang taubateano
Mataram mais de sessenta
Enquanto o governo assiste
E toda a imprensa lamenta
E o povo apavorado
Nem mais um tiro agüenta.

Pois é muita a violência
Que por aqui se atura
Enquanto a polícia passeia
Em tão precária viatura
Fingindo combater o crime
Sem a mínima estrutura.

Esse nosso bang bang
Tem patrocínio tucano
Com violência maquiada
E muita moleza pros manos
Os mesmos que todo dia
Põem em nossa cara um cano.

Autor Convidado: Silvio Prado

Lixeira

A cidade está imunda
Como se fosse um lixão
Desde a Santa Teresinha
Indo até o Mercadão,
Inclusive a Epaminondas
Onde pombo dá plantão
Lambuzando nossa roupa
E ainda sujando o chão.

Tão imundo município
Só reflete a desventura
Que nasceu e ganhou corpo
A partir da prefeitura
Onde um prefeito abusado
Que já andou de viatura
Não consegue entender
Que lixo nunca se atura.

Lixo se joga no lixo
Onde existe educação,
Mas em terra de ninguém
Vai direto para o chão
Podendo ser no da praça
Ou beirando um ribeirão
Lá na Vila Aparecida
E quem sabe no Areão.

Do jeito que tudo anda
O que será da cidade
Se ela não tiver peito
Removendo de verdade
O lixo de todo canto
E o lixo-autoridade
Acumulado em gabinetes
Cheios de improbidade.

Autor Convidado: Silvio Prado

Choradeira

“Henrique já vai tarde”,
Falou um seu ex-eleitor
Triste e decepcionado
Com o voto do vereador
Que demonstrando carinho
Fez com que o Peixotinho
Seguisse em seu despudor.

Esse vereador e outros
Que evitaram a cassação
Estão pagando agora
Por tanto erro e omissão.
Censurados nas igrejas
E em rodas de cerveja,
Aqui e ali ouvem sermão.

O povo que não é bobo
E analisa a conjuntura
Conhece os muitos erros
Que grassam na prefeitura
Sabendo que sem  vereador
Um prefeito sem pudor
Não entra em tal aventura.

Com o povo execrando
Quem se sujou na lameira,
Agora, daqui pra frente,
Não vai faltar choradeira.
Coisa de vereadorzinho,
Que pelo bem do Peixotinho
Traiu a cidade inteira.

Autor Convidado: Silvio Prado

Tucanagem

Um dia quando crescer
Quero ser como fulano
Virar sujeito de peso
Viver semeando engano
Me transformando  de vez
Em político tucano.

E quero ser indicado
Para assessor especial
Ou presidente maior
De certa empresa estatal
Que trambica com escola
Sua verba colossal.

Quero empregar amigos
E também todo parente
Dar ao filho assessoria
E cargo proeminente
Exato no gabinete
Do nosso maior gerente.

Se um dia eu crescer
E tiver grande estatura
Ninguém me tira o direito
De agir na cara dura
Me cacifando no Estado
Pra ganhar a prefeitura.

AUTOR CONVIDADO: SILVIO PRADO

Romaria

ROMARIA I

Pouco mais  de meia noite
Sob o escuro da estrada
Uma estranha romaria
Começou sua caminhada
No rumo de Aparecida
A cidade abençoada

Alguma  gente se juntou
Nessa estranha romaria
Com o prefeito Peixotinho
E sua imensa confraria
Caminhando pela noite
Até que venha a luz do dia

Justificou o prefeito
Que é de sua obrigação
Andar quarenta quilômetros
Com os pés rasgando o chão
No mais duro sacrifício
Em sinal de gratidão.

O homem está agradecido
Por ainda ter mandato
Curtindo sempre o bem bom
Sob tão rico aparato
E para festejar o  feito
Criou o ridiculo fato.

Dizem que Roubertinho
É homem de muita fé
Extremamente religioso
Pagando promessas a pé
Mesmo fazendo mutretas
Que envergonham Taubaté.

Tomara que na romaria
Debaixo do céu escuro
Ele se lembre daqueles
Que vivem passando apuro
Sofrendo no pronto socorro,
Local fétido, obscuro.

E se lembre ainda mais
De quem não tendo suporte
Sob descaso e abandono
Tiveram a triste sorte
De conhecer no PS
O frio abraço da morte.

Que ele também se lembre
Da pobreza da merenda
Que fez criança engolir
Comidinha tão horrenda
Enquanto gente na prefeitura
Engordava sua renda.

Certamente vai com ele
O sexteto da vergonha
Um bando de vereadores
De performance bisonha
Aqueles que na política
Trocam voto por pamonha.

E pra animar a romaria
Vai o cantor do mercadão
Soltando a voz estridente
E empunhando um violão
Talvez abafando a buzina
De um potente caminhão.

Apesar de sua obra
Que arrebentou a cidade
Todo dia apresentando
Um ato de improbidade
O prefeito anda tranqüilo
E mostra serenidade.

Por isso, nessa madrugada
Do descanso ele abriu mão
E beirando a via Dutra
Comandou com decisão
O que o povo agora chama
De romaria da corrupção.

ROMARIA II

Não tinha na romaria
Nem caipira  pirapora
Mas gente de fino trato
Dessas que às vezes ora
Agradecendo pela verba
Que ela vai levar embora.

Não era uma romaria
Como pede a tradição
Onde se paga promessa
E se mostra gratidão
Pela graça recebida
E pela consideração.

Mas era uma romaria
Vazando pelo escuro
Beirando a Via Dutra
Por motivo obscuro
Que quase  tira do povo
O seu direito ao futuro.

Poderia ser romaria
Ou até uma procissão.
Mas o certo é que ela
Contrariando a tradição
Agradecia pela “graça”
Conferida a um ladrão.

AUTOR CONVIDADO: SILVIO PRADO