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MAIS UMA PASSANTE


Hoje, 
olhei olhos que há muito conheci.
Antes,
olhávamos miragem. 
Vimos somente explosão.

Hoje,
não vemos
NÓS. 

Olhos e memória
revelada história,
que não somos o que fomos
passamos
e nunca seremos.

Ao espelho do caixão
no programado velório
um último olhar
Só. 

Então,
na lembrança
árida lágrima
sonhando rolar
pra sempre
seca.

Antes nunca a tivesse olhado passar.

Ali...



Autor Convidado: Rafael Martins
www.estantevelha.blogspot.com

Uma agenda qualquer

 
Veste-se em silêncio, uniforme diário. O jaleco branco, sujo, cala-se em amarelo discreto. Rosto limpo, barba sepultada, adentra a impessoalidade higiênica do hospital. Efervescente em agonias e carnavais, sua mente retorna a sangrias nostálgicas de um tempo charlatão, onde seu velho avô, morto morrido em casa, sorri em despedida ao neto, que indiferente gargalha do fim. Ele se lembra do avô e do brinquedo, e também do trabalho; a medicina que os liga, em ciclo. Em sangue e sono, o dia se passa, feito sonho mal vivido. No bar, desaba com o psicólogo: a cada dia sofro asas, cada vez maiores. Whisky, profissional de renome internacional, desenha em pensamentos: Há asas, mesmo esqueléticas, em cada servente com as costas marcadas pelos sacos de cimento; em cada bit de transações bancárias; em cada empréstimo feito a juros do feto feito na noite, de pinga e paixão, da já imemoriável cidade flutuante. Há asas sim, entre arranha-céus e palafitas, entre nuvens de concreto e de tinta, onde se sorri, da chegada e da partida, da morte e da vida. Isso! EU também sorrio, aqui as palavras, minhas asas...
- Doutor, com licença, estamos fechando. Gostaria de pedir algo antes de fecharmos a conta? – Diz o garçom, impecável na educação, a tanto custo, decorada.
O jovem doutor, pede então mais um whisky, passando as mãos do garçom uma quantidade de dinheiro que em muito sobrepuja o valor devido. A gorjeta fabrica um sorriso rápido e inesperado.
Uma vez só, as palavras do doutor Silva voltam a correr pelas linhas da agenda, cobrem totalmente o dia, cheio de compromissos, que se seguirá.
...não sobrepujam o brilho de meu crédito, no banco assenta-se minha dignidade. Cuspir em letras as asas sofridas, isto é tudo? Não, nem tudo se resume a corrosão dos sonhos; lágrimas assinarão os versos vindouros, sem identidade, sem existência.
 
Autor Convidado: Rafael Martins

MINHA TRISTEZA

Minha tristeza:
Céu tempestuoso,
Ventos errantes,
Solo estéril
Sementes secas
...
Fome do filho
Miséria da mãe
De nada disso germinou tristeza,
somente brotou do Sol,
nunca visto,
oculto por nuvens de esperança.
 
AUTOR CONVIDADO: RAFAEL MARTINS

Icem as velas!

Tudo o que é tudo é falso
Mãos cruzadas de cuspidores ocos.
Todos estão errados!
Todos estes todos, é apenas falso...
É, é apenas falso...
...

Cada átomo é individual em sua invisibilidade
Cada todo é falso em sua realidade
Cada conclusão é uma oração à verdade
Cada seqüência, uma afirmação do caos
Cada palavra, um desperdício calculado
Cada sorriso, um sentimento maquiado
Cada segundo, um passado abortado

E eu, que sei desse todo?

Nesse deserto não há vento para minha caravela
Mas que se icem as velas!
 
Autor Convidado: Rafael Martins

TRINTA MINUTOS ATRÁS

Trinta minutos atrás
Eram 15 minutos atrás

Eu era...
...rastro
...

Ó, tanto tempo trago
nos segundos do jamais.

Eu sou...
...arrasto
Atravesso:
Mares
Eras
A esmo, sem cais.

Ó, tanto tempo trago
No presente que jaz

Trinta anos atrás
Ainda serei incapaz?
 
Autor Convidado: Rafael Martins

ATEU

Orar deuses enlapidados?
Fumar sentimentos impressos?
Ó Poesia!
Não lhe cai bem o altar, 
o sussurro débil, 
o respeito enfermo. 
O grito, nunca virá?
Hosana nas alturas?
Calado acalento, 
Da nobreza culta.
Ó Poesia!
Não lhe cai bem os láureos,
o cuspido pedigree,
a evolução teleológica. 
A ânsia, agora veio?
Tola idiossincrasia?
Chega!
O amanhã vem longe
Hoje?
Cedo demais para morrer.
Poluído panteão,
aguarde!
Há nos bolsos sementes,
da adoração.


Autor Convidado: Rafael Martins
www.estantevelha.blogspot.com

Poesia?

Cancêr...
Câncer,
câncer,
câncer.
Câncer!
Uma doença.
Um medo.
Uma palavra

Câncer,

câncer
câncer
câncer
Câncer...
Uma pedra no espelho.
Um atentado contra ordem.
Uma revolução.

Câncer?
Câncer
câncer
câncer
câncer!
Vida!
Vida em demasia!
Orgia celular!

(Questão: Sou o corpo ou o câncer?)

Câncer!
Câncer...
Câncer,
Câncer;
Câncer.
Choro?
Rio?
-
Deixa disso,
melhor é contemplar o Cruzeiro do Sul.

Autor convidado: Rafael Martins

RELÓGIO QUEBRADO NO CHÃO SEM CASA

Há Deuses e leite na manhã morna da velha fazenda
Maria, João e José
e tudo mais que se quebra e não se chora
e poetas do silêncio
e os evangelhos e os sertanejos e tantas outras letras

Tudo que se conhece de perto dói
Por isso nunca mergulho, sempre deslizo
Envelheço a cada amanhecer,
Chovo quando quero,
Em minha horta nasce tudo o que nunca crescerá

Logo ali, atrás de casa, no quintal...
Há o mesmo fogo que queimou as obras que inspiraram Camões
E quem liga?
Maria, Jacu, Jutão
E tudo mais que poderia ser
e engenheiros de rabiscos apagados por obras primas
e tudo o que é eterno, ali no passarinho que acabei de matar

Tenho pudor em ser eu mesmo
Penso demais para ser eu
E cada gota do desperdício que cai em idéias
Não são meus, são baldios
E vem a gagueira...

A lata de sardinha
Sem sardinha,
Barco pirata enferrujado
A buscar sardinhas
No mar trazido pela chuva

Se tudo que quisesse escrever
Escrevesse
Eu seria a cópia mal feita
Semi lúcida, semi acabrunhada
Meio que apagada
De algo que veio antes
De coisas perdidas

Mas é pior...