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Atropelamento e morte em um dia de chuva

Chovia… Era sábado, 15 de Outubro de 2011. Um vento frio entoava uma suave tristeza sobre o dia cinza, peculiar do mês de Outubro; em uma cidade que já compartilha desta cor. Por vezes nos falta ar.
Era notório o ruído da água batendo no asfalto, formando poças, e logo, sendo espalhada com o passar dos carros.
Também era notório o ruído da água caindo sob o meu guarda-chuva, tanto quanto se podia ouvi-la quando estalava nas telhas e telhados das proximidades do cruzamento de onde eu, plantado há um bom tempo, esperava para atravessar.
Houve um momento em que me abati, e de súbito cedi a melancolia que me acolheu, me envolvendo no cenário e clima daquele local, onde, até então, mesmo diante da ausência de segurança que me trouxe a amargura, eu não poderia imaginar o que aconteceria em poucos instantes.
Quando o carro que me atropelou, causando a minha morte, aproximava-se, como eu pude ouvir em alguns comentários momentos após o choque, pouco antes de morrer, ele vinha a cerca de Oitenta quilômetros por hora, e eu não pude nota-lo, pois chovia forte naquele instante, e para esconder-me o máximo possível, no intuito e instinto de evitar o enxágue, eu havia curvado o guarda-chuva até um pouco abaixo da altura dos meus ombros, naturalmente, inclinando-o para o lado de onde o vento trazia a chuva de forma mais intensa, o que ocasionou à minha falta de visão do ângulo necessário para ver o automóvel em seu percurso.
Em um momento de pura confusão ou distração, senti que podia atravessar, mas, só depois que dei cerca de quatro passos e senti o choque, notei que estava errado. Voei longe. Precisamente doze metros.
No instante em que meu corpo, após quebrar alguns ossos com a forte pancada, e rodopiar no ar por inúmeras vezes, atingindo o asfalto, ouvia-se alguns gritos, talvez meus, que alarmaram o ocorrido. Alguns carros que passavam por perto pararam por curiosidade ou compaixão, e os passageiros destes, juntaram-se a toda a multidão que se dirigia ao local de minha morte, misturando-se as pessoas que esperavam a meu lado no cruzamento, também no intuito de atravessar, e que de perto, prestigiaram toda a cena.
Todos rodeavam o meu corpo. Pude notar nos semblantes o terror.
Tamanho foi o estrondo causado pela pancada, que poucas pessoas, ao me verem agonizando e jorrando sangue pela boca, nariz e por diversos ferimentos aparentes, incluindo algumas fraturas expostas, que além do sangue mostravam a fragilidade do ser humano, acreditavam que eu ainda podia estar vivo. Durei poucos instantes após o ocorrido, mas a maneira com que morri foi chocante para aqueles que ali estavam e presenciaram cada detalhe.
No rolar no asfalto molhado, ralei quase todo o corpo, ensanguentando o pouco de roupa que resistiu a queda. Na ocasião de minha morte, eu vestia uma bermuda preta, surrada; um tênis branco com detalhes vermelhos, o mesmo que uso agora, e uma camiseta da banda Black Label Society, também da cor preta. Nada ficou intacto.
Ardia e queimava. A dor só não era maior que o sofrimento de se ver estatelado diante da morte.
Neste poucos instantes em que resisti, perdi e recobrei a consciência por diversas vezes.
Um senhor grisalho, de olhar sereno, no momento em que suas lágrimas fugiram aos olhos, pegou o telefone celular e chamou o resgate, ele pedia de maneira desconsolada para se apressarem, mas já era tarde, pois, nem por um milagre eu poderia ser salvo.
Do carro que me atropelou, saiu uma mulher de cerca de trinta anos; desesperada. A pobre mulher estava em completo estado de choque.
Eu tentei conforta-la, dizendo que a culpa era minha, pois me precipitei ao atravessar a rua, porém, neste momento eu já estava prestes a espirar, e minha voz não saia, estava mudo.
Em torno do meu corpo havia muita gente. Todos me olhavam e colocavam as mãos sobre a boca, sobre a cabeça, passavam-nas na testa, e lamentavam. Sofriam.
Uma cena terrível de se ver.
Quando eu comecei a estrebuchar, e a hemorragia interna jorrava litros e litros de sangue, principalmente pela minha boca, podia-se ouvir os lamentos e mugidos de desespero de todos em volta.
Eu pensava e refletia sobre muitas coisas neste momento.
Sempre ouvi dizer que no instante da morte passa-se uma vida diante dos olhos, e é verdade. Lembrei-me de toda a minha família, de todos amigos, e de todos os meus planos que ali, junto de minha alma se esvaíram. Todos os meus trinta e quatro anos tornaram-se um filme de curtíssima duração diante dos meus olhos.
Ouve um momento em que a dor sessara, e a minha respiração de ofegante tornou-se apenas uma leve palpitação. Eu enfraquecia. O meu corpo já não podia resistir as fraturas e ferimentos do atropelamento. Eu estava morrendo.
Tentei resistir. Queria pedir a alguém para avisar a minha família sobre o acidente, mas como disse antes: minha voz não saia.
O desespero e agonia das pessoas em volta era contagiante, e comecei a me desesperar. Percebi que morreria ali, naquele momento.
Tudo isso passou-se em poucos instantes. Um curto tempo entre a vida e a morte.
Por um pequeno descuido, estava eu, ali, jogado ao chão, coberto de sangue, morto.
Somos frágeis, e isso é certo. E nossas fragilidades são postas à prova de diversas maneiras.
Por vezes, tais provas duram por toda uma vida, para no fim de tudo, nos mostrar algo, ou, nos usar como um espelho para outras pessoas.
Como dizem: viemos ao mundo por um motivo. Uma missão.
Em outras vezes, as provas são aplicadas em pequenos fragmentos de tempo. Tudo é muito rápido. Como em um atropelamento.
O ser humano é distraído e falho, e isso também é certo. E nossa falhas são postas a mostra de diversas maneiras.
Por vezes, morrem pessoas, por conta de pequenas distrações, como não olhar para atravessar uma rua.
Mas… Não creio que os problemas da humanidade estejam somente envolvidos com a morte.
Como dizem: morrer é um alívio para quem não sabe viver. Dizem? ou eu que estou dizendo agora? Que seja.
Por pequenas distrações/falhas: esquecemos de dar bom dia para alguém que cruza o nosso caminho de manhã; esquecemos de agradecer pelo troco que recebemos do padeiro; esquecemos de acenar as mãos para alguém que nos ergueu as suas; esquecemos de dar um sorriso, um abraço, um beijo, ou, demonstrar um gesto de carinho para aqueles que moram dentro de nossas casas, ou que, vivem próximos, participando de perto de nossas vidas. Esquecemos de trocar a água do passarinho; de regar as plantas; de limpar a sujeira do cachorro; de observar a lua; de agradecer a beleza que as estrelas nos proporciona ao olhar. Esquecemos, ou alguns esquecem: de honrar com seus compromissos, e por vezes, esquecem de honrar o seu próprio nome; entre outros.
É uma pena, mas esta lista de esquecimentos e falhas humanas beira o infinito.
Existem possibilidades de cessar tais falhas?
Pois, mesmo as falhas, as quais, julgamos pequenas, deveriam ser extintas, afinal, falhas são falhas.
 É possível?
No instante em que aquela visão da morte passara diante de meus olhos, me roubando todo aquele momento, me atordoando diante daquela prova instantânea em que a vida me impôs, por sorte, suspendi o guarda-chuva, olhei para os dois lados, e permaneci na calçada. 
Não me recordo ao certo se sobrevivi ou ressuscitei… Ou ambos…
Existem pequenas coisas que podem mudar toda a direção de uma vida…
Olhar para os dois lados pode ser um bom começo…
Procurar entender o avesso de certas coisas e tentar ser uma pessoa melhor pode ser um outro bom começo…
Não espere pela morte para ressuscitar!

Autor Convidado: Ricardo Altava

A vila encarniçada

Uma pequena vila encarniçada, poeirenta e descuidada; quase uma cova de defuntos vivos.
Ali se estapeiam e se embebedam por boa parte do tempo, e logo, se espreguiçam e descansam e voltam a se estapear e embebedar.
São nove as casinholas que formam esta vila, sendo moradores, cerca de trinta pessoas, algumas que não vale a escrita, e uma meia dúzia que caracteriza bem esta vila encarniçada.
Uma destas casinholas alimenta os vícios inerentes funcionando de dia como bar e a noite como centro espirita. Bebem de dia desiludidos e a noite Abençoados.
Niroca vende cachaça, e sua especialidade é empurrar a maldita pinga envelhecida com uma cobra assentada no fundo da garrafa, o que gera reboliço entre os bêbados e desenganados. A noite, ela veste-se de branco e o saravá come solto no fundo do quintal.
Seu marido Eugênio bebe junto dos fregueses e dança junto da roda, sua serventia para por ai.
Quem também se veste de branco é Pedro Pina, ex-crente, dispensado da igreja na mesma época que seu ex-patrão lhe concedeu as contas. Dança na roda por pura birra.
Bernardete, é ex-mulher de Pedro Pina, atual mulher de Assis, o Pastor Impostor, como o chamam na vila.
Zé Papelão, um xucro de boa essência, ganhou apelido por conta dum episódio num discurso politico feito na vila para compra de votos, que com receio de perder o prestigio e as promessas, não abandonou o palanque nem em suas extremas necessidades.
Não podemos desprezar Nandinha, a filha de Niroca e Eugênio Boa moça para todo rapaz. Toda noite, enquanto dançam na roda do saravá, ela que não se encaixa, roda entre os rapazes no fundo da vila.
Certa vez, enquanto Niroca despojava Pedro Pina aos tabefes, por conta de uma dívida custosa, Nandinha morrendo de pena do corno, se fez de complacente e acompanhou-o até sua casinhola. Lá, onde além da geladeira restava a cama, fez sarar toda dor dos tapas e a lembrança dos trocados.
Se não lhe bastasse os olhos azuis e as pernas torneadas, seus lábios frescos entreabertos e seu busto recheado davam claras evidencias de intenso prazer.
Pedro Pina, após a caridade de Nandinha, apaixonou-se. As lembranças de Bernardete rolando na cama de Assis já não incomodava.
Nandinha não correspondia a paixão de Pedro Pina, pois não lhe faltava pretendentes, e o que ela queria dos rapazes não era paixão. Como diziam as más-línguas: gostava de levar fumo.
Já Bernardete, que descarada corneou Pedro Pina, dando mais que o dízimo ao pastor, soube da paixão do ex-marido e esbravejou ao modo feminino. E sem bastar os xingamentos e difamação, pelos cabelos arrastou Nandinha pela vila, até onde encontrou Niroca e relatou a transa. Um furdúncio estava armado.
Niroca de tão desconsolada e descontrolada, estapeou ambas, e depois foi papear a seu modo com Pedro Pina, que parou no hospital.
Assis, quando soube do caso, esbravejou com Bernardete, por conta do ciúmes que esta sentiu do ex-marido, e levando pelo lado profissional, aumentou o valor do dízimo da cachorra, alegando que sem o aumento Deus não a perdoaria.
Num outro dia, na ausência de Niroca, Eugênio se embriagava sossegadamente quando chegou Zé Papelão.
— Tem ai um refresco?
Eugênio serviu Zé, e papearam.
— Como está a menina? E Pina, o que diz?
— Quer casar.
— Diacho… E a menina?
— Disse que não casa nem morta.
— Pior…Logo a barriga começa ganhar tento.
— Ela diz que o pai não é Pedro Pina.
— Como assim? Se não é de Pina…
— Diz que é filho de Deus, acho que não sabe de quem é.
— Diacho… Certeza Eugênio?
— É o que ela diz.
— Danou-se.
— O que te aporrinha?
— Eugênio, escuta só, em nome de nossa amizade, se for meu, me proponho a casar.
— Você também?
— Poucas vezes.
Assis dizia à Bernardete: — Tomara que seja de Pina.
Bernardete respondia: — Se for é bem feito!
Logo que a ausência do pai pesou nas contas de Niroca e Eugênio, Nandinha ficou contra a parede. — Menina! Diga logo quem foi! — Eu já disse! Meu filho é de Deus! — Se não diz eu pergunto aos orixás.
Dito e feito. No saravá daquela noite, Nandinha foi assunto.
Entre cânticos e rodas, flores e cachaça, meias palavras ao pé do ouvido, desembucha:
— Sabe Preto Véio… Aqui nesta casa que também é sua, estamos aporrinhados com Nandinha, que pegou barriga e não diz ou não sabe quem é o pai.
— Rum, rum… Xíiiii… — E pita seu cachimbo.
— Preto Véio… Precisamos descobrir quem é que vai arcar com a criança.
— Rum, rum… Preto Véio sabe das coisas, mas nem de tudo… Rum, rum… Então a danadinha subiu no cipó? Rum, rum… — e pita.
— No cipó de um matagal todo.
— Nesse caso, é fazer de conta que um bom moço é que é o pai, sabe? Faça boa escolha. Me entende? Rum, rum… Isso sim… Até a criança nascer, depois pela cara da criança descobre o pai.
— Ta querendo dizer para… Mas e se… Cê sabe bem o que diz?
— Eugênio? Cadê você homem de Deus? Ontem falei com Preto véio a respeito da menina. Ele me disse para escolher o pai do meu modo de pensar e ver.
— E você acha que a menina vai aceitar? Ela já disse que não casa nem morta.
— Não precisa casar ué! Só precisa de alguém para assumir.
— Só sei de dois maduros, mas são todos pé-rapados.
— Escuta aqui Zé Papelão! Mais tarde você dê um pulinho lá em minha casa, precisamos ter uma prosa.
— Pedro Pina? Já voltou do hospital? Mais tarde quero você lá em casa para uma prosa.
Zé Papelão chega assustado, senta, olha, tira o chapéu, meche nos cabelos, enxuga a testa com um lenço de pano. Pedro Pina, pede um copo, mata, homem bom olha com medo para megera, e senta.
— Vocês dois vão ser pai!
— Como assim nós dois? — Se assustam.
— Enquanto não sabemos quem é será os dois, e quando a criança nascer é só olhar na cara. Se nascer com cara de asno esmigalhado é de Zé Papelão.
— Diacho.
— Se for borocoxô, feito meio-homem é de Pina.
— Só ando entristecido, só isso.
Nasce a criança, um menino, olho preto esbugalhado, cabelo de rato, cara de joelho, chora, grita, mama, dorme, acorda, azul de tão preto, chora de novo, mama… Veste a roupa que ganhou do pai Papelão, brinca com o chocalho que ganhou do pai Pina.
— Niroca… O moleque não parece nada comigo! — Replicam.
— Nandinha minha filha, a criança é tição! Mais puxado para o azul.
— Ué! minha mãe! Como eu ia adivinhar a cor de Deus?
— O único tição desta vila é Assis! O pastor!
— Mãe! Ele não é o pai! Foi só uma ferramenta que Deus usou! Não é assim que eles dizem?

Autor Convidado: Ricardo Altava

SE A CONFUSÃO LHE CONFUNDIR,UMA VIDA CONFUSA ESTÁ POR VIR

Só se diz que o bonde passa quando se perde, pois o contrário, quando se pega, não se pode dizer que o bonde passa, e sim que te carrega, que te leva.

São caminhos difíceis e cheios de solavancos, contudo, talvez o tremor dos músculos no balanço possam ser entendidos como uma massagem sem preço, e quem sabe um solavanco seja preciso para lhe recolocar às ideias, e indicar um começo.

Quando o passo à frente necessita de espaço para não tropeçar, dois para trás lhe dá asas para sobrevoar o tanto necessário, além do apoio que o inclinar das pernas lhe traz, a visão toma um bom ângulo quando olhar de trás lhe apraz.

Olhar de trás não significa estar atrás, perder terreno, perder dianteira, ser ignorado, largado, derrotado; em contrário às palavras, pode constituir um amplo campo de visão, onde o que é claro brilha e o que é escuro guia, ou vice-versa, como toda conversa.

Falando em vice-versa, pode-se notar que vice é um e versa é dois, ou talvez o contrário? No entanto, o que importa é o cenário, talvez a cena, ou apenas seja necessário a mão que lhe acena, de um lado para o outro, como tudo tem dois lados, talvez algum valha à pena.

A força do destino só lhe empurra para um lugar onde você caiba, às vezes apertado, horas folgado, mas nunca emperrado, pois pode apostar, como cada panela tem sua tampa, cada um tem seu espaço, o seu ninho, o seu destino, e também, a força necessária para abrir às portas do caminho.

A força precisa para abrir uma porta emperrada, com toda certeza é maior e ultrapassa em grande proporção, a facilidade de quem ousa da inteligência para entender o sentido das chaves, e neste caso não é necessário sofrer para passar, simplesmente, basta o apoio da palma das mãos, para do outro lado encontrar.

Encontrar? Do outro lado? Talvez, e bem provável que assim seja. Pois não encontrar é o mesmo que se perder, e não procurar é ainda pior, e neste caso seria melhor morrer. Mas firmemos o pensamento nas possibilidades benéficas. Para assim que chegar ao destino, e encontrar o que procura, poder voltar, para poder encontrar um outro lugar, ou no caso de se acomodar, viver estagnado, ciente da tortura, ou quem sabe da loucura.

Da loucura de deixar para lá, sem ao menos almejar algo a conquistar, ter um tanto a doar, ter caminhos a trilhar, um modelo a moldar, um sofrer para o prazer, um amor para se amar.

A vida passa e não o bonde, o solavanco te procura quando você se esconde, dois passos atrás pode ser além, o olhar de trás não é o que nos detém, tudo tem dois lados e você também, o destino só te emperra quando você erra, a porta emperrada nem sempre é a errada, ciente da tortura é que se busca a ternura, seria bom deixar para lá, mas temos uma vida a viver e um amor para encontrar.

Autor Convidado: Ricardo Altava

CONTO: UM TANTO COMO OS OUTROS SORVETES


— Eu juro que não fiz nada! Tem que acreditar em mim! Eu sou inocente! Quero que este teto desabe sobre minha cabeça se eu estiver mentindo! — exclama de forma perturbada.

— Que teto seu imbecil? Estamos ao ar livre. E não venha outra vez com essa conversa de que não fez nada. Todos sabem que você é o culpado e ponto. E desta vez farei com que pague o preço justo pelos seus atos.

— Ai! meu Deus… Agora ferrou de vez… — lamenta, enquanto segue a justificar-se.
Meu nome é Abreu… Não! Absolutamente não! Que mania de achar que sou o Abreu, aquele que te… Esqueça desta ideia, pois, sou apenas o Abreu Januário Bordas Quitanda, filho de dona Maria Bordas Quitanda e de Pedro Fino Pomposo Quitanda, neto do Senhor Azevedo Pomposo Quitanda, mais conhecido como “Seu Quitanda”. 

O que? Há! Claro, como eu iria me esquecer… 

Na verdade eu não iria me esquecer, mas a sua pressa se colocou a frente de minhas palavras, antecipando-se ao fato de eu não haver mencionado o nome de minha avó, mas é obvio que eu não iria deixar de dizer um nome tão lindo, como o da senhora Azara de Correia Basta de Pomposo Quitanda, que além do belo nome, é uma senhorinha daquelas tradicionais, sabe? Não? Não! Não tem nada a ver com a criação tradicional. Não! Pelo amor de Deus… Também não tem nada a ver com a origem dela, que saco! Não e não! Ela nem veio da Europa! Ela é daqui mesmo deste doentíssimo país… O que? Foi o que eu disse! Esta achando que sou doido? Eu disse exatamente isso! Quer que eu repita? Ora essa, só pode estar de brincadeira… Eu disse: Ela é deste digníssimo país! Ué!… Mas pode me deixar continuar? Ou vai me interromper outra vez? Que seja então… 

Quando digo uma senhorinha tradicional, me refiro a falta de memória, as dores nas costas, aos bicos de papagaio, a famosa labirintite; e sem esquecer de falar das inúmeras rugas. Como tem rugas essa minha avó, você nem imagina. E a pobrezinha de uns anos para cá, vem reclamando que não ouve e nem enxerga direito. Mas outro dia, estava eu, enroscado com a Catita, a minha vizinha; estávamos debaixo de um lençol no sofá da casa desta minha tradicional vovó. E não é que a danada, mesmo eu fazendo tudo no maior silêncio… O que você acha que eu estava fazendo? Deixa de ser idiota, e pare de me interromper! Catita, até que não é daquelas que se diga, nossa! Como ela é silenciosa! Mas levando em consideração que minha avó vivia reclamando que não ouvia nem enxergava bem, achei que aqueles gemidos de Catita iriam passar despercebidos; mas a velha é esperta, e nos pegou no pulo. E é claro, foi correndo contar para o senhor Quitanda. O resto? Não! O resto nem vou dizer… Mas saiba que se um dia aprontar algo diante dos olhos, ou do conhecimento desse meu avô, rogue por suas nádegas, pois a vara de bambu que ele guarda atrás da porta do quartinho da bagunça, canta, e como canta…

Pode esperar um pouco? Mas que pressa! Eu já disse que meu nome é Abreu Januário Bordas Quitanda? Filho de dona Maria Bordas Quitanda e de Pedro Fino Pomposo Quitanda, neto do Senhor Azevedo Pomposo Quitanda e de Dona Azara de Correia Basta de Pomposo Quitanda? Está vendo como você me atrapalha? Eu quase deixei de falar do meu irmão mais novo. Tudo bem que não acho que ele tenha muita importância nesta história. Como não? Não tendo, ué… Você que esta dizendo! Mas quer saber: A história é minha! Então, atribuo importância à quem eu achar que devo. E você, por favor, fique quieto, está me distraindo…

Onde eu estava? Há! Sim… Esse meu irmão… Já disse o seu nome? Não? Está bem… Como eu dizia. O meu irmão mais novo chamava-se: Tadeu Januário Bordas Quitanda; e ele tinha 4 anos a menos que eu… Então, se eu tenho 16 anos, ele tinha 12, ou ainda iria completar 12? Não me recordo. Mas que seja… O fato é que: tudo, qualquer coisa, o que seja que aconteça de errado na família, a culpa nunca jamais foi atribuída a este meu querido irmão, e eu acabo sempre pagando o pato de tudo… Bem, se duvida do que eu digo… Momentos antes de iniciarmos esta conversa… Como não? Qual foi a primeira coisa que ouviu? Meu Deus… Como é difícil… Tem gente que demora para cair a ficha. Mas vamos lá… 

Estava eu, aos berros, tentando me livrar da coça que… Isso… Isso foi ontem? Que seja… Neste exato momento em que eu dizia, ou melhor, gritava: 

— Eu juro que não fiz nada! Tem que acreditar em mim! Eu sou inocente! Quero que este teto desabe sobre minha cabeça se eu estiver mentindo! 

Antes tivesse caído o teto! Há! Sim, é que não foi com você! 

Já sentiu alguma vez, o peso da mão do senhor Pedro Fino Pomposo Quitanda? Nem queira! Chega a ser pior que as varadas de bambu do senhor Quitanda, meu avô. E eu, melhor que ninguém, posso dizer.

Só para você entender:
Outro dia, estava eu: belo, lindo, charmoso, andando pela casa. E ai quem estava com a cara metida na geladeira, surrupiando o sorvete de chocolate com amendoim? Justamente! O pentelho do Tadeu. Meu querido irmão. Ai! eu, sentindo-me indignado com o furto, resolvi aplicar-lhe um castigo, já que o senhor Pedro Fino Pomposo Quitanda, que é o homem que ocupa tal cargo na família, não estava em casa, então… Cheguei bem perto; tomei todo cuidado para o pirralho não perceber a minha presença; andei nas pontas dos pés até chegar tão perto, mas tão perto, que pude perceber ao olhar por cima dos ombros do pentelho, um enorme espaço entre a segunda e a terceira prateleira da geladeira, e como sabe, sou muito bom em calcular espaços e medidas só com o olhar, e de pronto pude averiguar, que pelo tamanho do meu irmão, comparado ao espaço vago na geladeira, nem pensei… Enfiei o safado lá dentro, e fechei a porta… 

Claro que eu iria abri-la depois! Acha que sou louco? Ou acha que em vez de sorvete de chocolate com amendoim, eu iria preferir sorvete de Tadeu Januário Bordas Quitanda? Eu hein…

Sim! Mas a culpa não foi minha… Eu iria esperar alguns minutos e tira-lo de lá, mas ai… 

A minha queria mamãe, dona Maria Bordas Quitanda, me gritou lá da lavanderia. E como sabe, sou um filho muito obediente, e fui logo ao primeiro berro da velha. Ai, já sabe… Ela pegou uns trocados do bolso do avental, e me mandou ir até a venda do seu Gomes, para comprar sabão em pó; e já com certa irritação me recomendou que lhe trouxesse o troco certinho, sem faltar uma moeda sequer; e antes que meus ouvidos estourassem, eu fui num pé só… 

Como a inflação desse nosso país é mais evoluída que qualquer outra coisa; chegando lá; não era que o bendito sabão estava mais caro? E a ninharia, a qual minha mãe me entregou, não era o suficiente para comprar o sabão… 
Ai! estava eu, com uma tristeza profunda e um medo danado, voltando no outro pé, para pegar o restante do dinheiro, quando… Não é que o senhor Gomes, muito bom como sempre foi, me disse: 

— Rapaz, olha só… Faltam lhe algumas moedas para pagar o sabão de dona Maria, certo? E eu aqui pensando com os meus botões, pensei: Que tal você me fazer um favor? E em troca, eu lhe vendo o sabão pelo trocado que você traz, sem que precise ir até sua casa pegar o restante que falta. O que acha?

Ai! pensei eu: “ Minha mãe vai ficar furiosa com o aumento do sabão! E quando ela fica furiosa, eu sei muito bem em quem ela vai descontar, além de que, ela é bem capaz de não fazer aquele bolo de cenoura que me prometeu ontem”. 

— Está bem, senhor Gomes, mas o que tenho que fazer? 

— Ó, rapaz, é um favor muito simples… 

— Está bem, mas me diga. 

— Você deve ter ouvido o comentário que circula na vizinhança, de que eu e a dona Bete, mulher do Zé… Isso mesmo: o serralheiro. Dizem que estamos de caso, você ouviu? Então… Mas sabes que tudo isso não passa de uma grande mentira, não sabe? Que bom! Assim fico mais tranquilo… O caso é que: outro dia, antes do Zé (Serralheiro) descobrir tudo, minha mulher me mandou arrumar uma banqueta; uma banqueta bem velha. Na verdade, nem sei para que a diaba quer a maldita banqueta. Mas o caso é que: Mandei o Serralheiro consertar a peça, e agora a minha santa mulher, que nada sabe desta história milonga entre eu e a minha amante, esta me enchendo o saco por conta da banqueta; quer por quer a maldita banqueta de volta, tenha o Zé (Corno) consertado ou não; mas como eu dizia: o caso é que, se eu der as caras lá, o homem já disse que me arranca os frutos galináceos. Então pensei: e se você fosse até à serralharia e arrumasse um jeito de me trazer a banqueta? Eu, além de não lhe cobrar o aumento do sabão, deixaria você escolher o doce que quiser. O que acha? Você é um negociante nato em rapaz. Esta bem! Te deixo escolher o doce que quiser durante uma semana inteira. Estamos acertados?

E depois de fixado o acordo de cavalheiros entre o senhor Gomes e eu, fui até a serralharia. O que? Você nem imagina! Mas se calar a boca e me deixar continuar, vai saber de tudo.

Assim que pisei na bendita serralharia, quem me vem logo perguntar o que eu desejava? Não! Não foi o Zé! Foi a filha dele, a Melissa… Uma beleza de garota, bojuda que só. Uma delícia. Muito mais bonita que Catita e muito mais velha também, levando em consideração que Catita só tem 13 anos, e a filha do serralheiro deve ter seus 18… Mas o fato é que: o gostosão aqui, conquistou os olhares desta mocinha bem arrumada, há se conquistei… E em alguns minutos em que fiquei parado a sua frente, imaginando o que eu poderia fazer com aquele corpinho sinuoso, ouvi ela dizendo: 

— Diga menino! O que você quer? Perdeu a língua? 

Não ria! É que você não entende nada de mulheres, por isso não percebe que no fundo ela estava caidinha por mim. Mas ai sim, me vem o Zé. E assim que vi aquele homem gigantesco e muito feio bem na minha frente, entendi por qual motivo sua mulher o traia, e também o porque do seu Gomes se mostrar com tanto medo. Mas eu, como destemido que sou, não pude deixar de encara-lo com toda severidade; e só desviei o olhar quando ele olhou na minha direção. É sério! Eu realmente encarei o sujeito de uma forma… Mas me deixe prosseguir…
Quando esse tal Zé (Serralheiro? Corno?), me perguntou com uma voz que mais parecia um vulcão entrando em erupção, o que eu queria, eu pensei: “Se eu falar a verdade, esse gigante é bem capaz de ir até a venda de senhor Gomes, e partir-lhe a cara” E Pensei também: “ E se ele partir a cara do senhor Gomes, este por sua vez, não fará o desconto no sabão; o que vai deixar minha pobre mãe, além de mais pobre, muito irritada” E pensei ainda mais: “ E eu, que não tenho nada a ver com a história, além de aguentar a braveza de minha mãe, vou ficar sem os doces que o velho me prometeu” Então… Eu muito esperto que sou, respondi ao Zé (Corno):

— Eu vim lhe pedir um emprego!

Perguntou-me o corno.

— Quer trabalhar aqui, rapaz? 

— Não é nem que eu queira, meu senhor; mas preciso! Minha família é pobre por demais; e chegamos em um estágio tão lastimável, que estamos até passando fome…

Eu sei, que isso não é verdade! Mas o que queria que eu disse-se? Isso foi o melhor que me veio em mente no momento. E nem foi porque eu vi uma placa pendurada na parede escrito: Precisa-se de ajudante. Foi mesmo ideia minha! Pode apostar…

Ai, cinco minutos depois, estava eu, vestido com um avental sujo, repleto de serragem por todos os bolsos; além do tamanho que não era o meu; era um avental de um adulto dos bem grandes, talvez fosse até do Zé, mas na situação em que eu estava, qualquer queixa poderia por tudo a perder; e convenhamos: uma semana de doce grátis vale qualquer sacrifício.

O inicio desta história, que parte desde o momento em que meu irmão roubava o sorvete de chocolate com amendoim, ocorreu por volta das 10:00 horas da manhã, e o tempo passou tão rápido, que quando terminei o expediente de trabalho, já era por volta das 17:00 horas. Mas a espera valeu a pena, pois assim que o relógio que ficava pendurado bem acima da mesa do Zé, bateu 16:30, esse meu ilustre patrão, me pediu para varrer toda sujeira e foi se recolher. Eu nada bobo, como você já deve de ter notado, não varri foi nada. Tratei logo de achar a maldita banqueta da mulher do vendeiro, e por sorte, esse havia me feito um relato completo da banqueta. Relato, o qual descrevia: que a tal banqueta era feita de uma madeira bem escura e lustrosa, e possuía o acento estofado, coberto por um tecido azul-escuro; com os pés sobre uma espécie de borracha, tipo aquelas usadas para fazer solas de botina de soldado; entre outros detalhes. E esse relato me foi de grande serventia para encontra-la, apesar que só havia uma única banqueta em toda serralharia, e era logo a maldita. Por fim, surrupiei a danada! Claro que senti medo! Sim, também fiquei com um pouco de remorso! Mas… Ao ver a cara de felicidade do seu Gomes quando entrei na venda com a banqueta, todo medo e remorso transformou-se em alegria.

Assim que peguei o sabão em pó, e escolhi um daqueles doces de goiaba. Isso! Aqueles em forma de triângulo, coberto com açúcar cristal, que vem enfiado em um palito de sorvete. E neste momento, por falar em sorvete, lembrei do meu irmão caçula e fui correndo para casa… 

Quando cheguei em casa, minha mãe estava uma arara, já esbravejava até com o pobre do papagaio, que teimava em repetir o tempo todo: Puta que pariu, onde se meteu esse moleque? Puta que pariu, onde se meteu esse moleque? Mas assim que lhe entreguei o sabão, e umas moedas de troco, porque é claro, depois de tudo, pedi um bom desconto ao vendeiro, a modo de açucarar a minha mãe; ela pegou o sabão, o troco, e esqueceu do resto. Assim são as donas de casa: Com pouco já estão completas…

Há! Sim… O meu irmão, vulgo picolé. Fui correndo para a cozinha… Assim que abri a geladeira, o sorvete ainda estava lá. Não! Seu animal! Não estou falando do sorvete de chocolate com amendoim, estou falando do Tadeu. Estava lá feito um picolé, durinho; saia até fumaça dos seus ouvidos. 

Vivo? Deixa de ser burro! Acha que uma pessoa que passou o dia na geladeira, e a qual acabo de lhe dizer que estava duro feito pedra, e que saia fumaça até de suas orelhas, pode estar vivo? Naturalmente não! Estava morto, e bem morto. Ora, o que eu fiz… Tirei ele de lá antes que estragasse as frutas que estavam na parte de baixo da geladeira. 

Claro que nem minha mãe, e nem ninguém, poderiam saber que eu havia trancado meu irmão mais novo na geladeira, e que esse virou um sorvete igual aquele que ele pretendia surrupiar, afinal, qualquer um ficaria muito triste em saber que tem um ladrão em sua família.

Meu Deus! Mas como me interrompe! Shhhh…

Peguei o ladrão safado e levei para a garagem, e lá deixei ele por algum tempo; até pensei que ele pudesse derreter, assim me evitando tamanho trabalho que tive depois, mas, o bicho estava tão duro que nem com reza brava derretia. O que eu fiz? Está louco? Eu já te disse, não podia contar para ninguém da minha família, iriam ficar decepcionados com o ladrão.
Bem, Não foi fácil, mesmo para uma pessoa inteligente como eu, tive que pensar muito no que fazer para esconde-lo, pois chegaria à hora em que sentiriam sua falta, então…

Voltei até à garagem. Mas desta vez fui mais esperto; levei uma faca bem afiada, e picotei ele todinho… Claro que foi uma ótima ideia! Mas assim que comecei a cortar, não é que o safado começou a derreter? Tudo para me provocar! Pois se ele tivesse derretido quando eu fiquei ali torcendo para isso, teria me poupado; mas eu conhecia bem esse pilantra, sempre querendo me provocar… Há! Mas desta vez ele se deu mau, pois assim que vi, que ele para me azucrinar, estava se derretendo todo, eu peguei alguns saquinhos, sabe? Daqueles de fazer geladinho? Isso! Esse mesmo! Aqueles sorvetes caseiros, que as donas de casa, cujos maridos comem muito, ganham pouco ou não trabalham, fazem para distrair o espaço vago na geladeira, e para ajudar na renda familiar, enquanto o vagabundo do marido enche a cara e assiste TV o dia todo. Este é o caso de uma vizinha minha, e possivelmente o caso de alguma vizinha de qualquer pessoa… Se lembra de alguma?

Mas me deixe seguir… 

Peguei o safado e o coloquei dentro desses saquinhos, e logo o devolvi à geladeira. 

Acha que estou brincando? É sério… Ele parecia aqueles geladinhos de abacaxi com resto de outras frutas, misturado com groselha. Enfim…

Enquanto minha mãe servia o jantar, meu pai que acabara de chegar do trabalho, justamente no mesmo instante em que minha avó Azara de Correia Basta de Pomposo Quitanda e meu avô, o senhor Quitanda, os quais serravam a boia todos os dias em minha casa, começavam a perguntar sobre a ausência do fedelho. Eu? Fiquei bem quieto… E assim que se cansaram de perguntar por ele, ou o esqueceram ao sentirem aquele cheirinho delicioso de feijão com carne seca, se puseram a comer, assim parando de falar. E eu fiquei bem quietinho em meu lugar, enquanto deliciava o jantar, o qual, pela primeira vez, desde o nascimento do meu querido irmão, eu conseguia engolir em paz. Mas meu pai, é daqueles homens, que no caminho do trabalho para casa, vai parando de bar em bar, e não sei aonde, o velho ouviu dizer que eu andei carregando uma banqueta velha pela rua, e claro, quis ouvir da minha boca do que se tratava tais comentários, acabando com a minha paz tão aclamada. Ai fui obrigado a contar o que aconteceu: o sabão, o dinheiro, a traição do vendeiro com a mulher do serralheiro, o acordo entre o senhor Gomes e eu, Melissa, o avental, a banqueta, o emprego; até o furto fui obrigado a confessar, porque uma hora ou outra, o serralheiro iria descobrir que eu era filho de Pedro Fino Pomposo Quitanda e lhe contaria tudo; e como não sou de mentir, contei eu mesmo. 

Claro que ele ficou furioso! Que pergunta…  Mas ai, eu disse que fiz tudo de bom coração, e que a minha intenção era a melhor possível; e que com isso, consegui o meu primeiro emprego, mesmo que só tenha durado meio período de um único dia, e ainda consegui um desconto no sabão de minha mãe. Neste momento meu pai já começava a se tranquilizar; e eu para reforçar que minha boa ação não parava por ai; enfatizei o fato de que além de tudo, livrei o velho vendeiro de ter que se entender com a mulher por conta da banqueta, antes que a explicação tivesse a virtude de chegar à mulher do serralheiro. Ai! meu pai de furioso, passou a orgulhoso. E como não sou besta nem nada, aproveitei o momento de ternura entre meu pai e eu, e inventei uma historia de ultima hora, a qual achei que me livraria bem a cara. Disse eu, que com uns trocados que o seu Gomes me deu de gorjeta, pensando exclusivamente em minha família, comprei algo delicioso…

E enquanto eles saiam para o quintal para tomar um ar após o jantar, eu fui até a cozinha e peguei uma porção dos geladinhos, os quais, servi a todos eles com grande entusiasmo, a fim de me livrar de vez daquele fedelho larápio de geladeira. 
O que aconteceu? Você nem imagina… 

Sim… A princípio, todos ficaram felizes por eu não ter me portado com egoísmo, e ter usado meu dinheiro para comprar sorvetes para toda família. Mas assim que meu pai, que foi o primeiro a experimentar o tal geladinho, fez uma cara estranha; eu não me aguentei, e comecei a rir. Até tentei esconder as gargalhadas com a palma da mão, mas meu pai que sempre desconfiava de tudo, principalmente de mim, e que não gostava de brincadeiras, já imaginou que eu pudesse estar de sacanagem, e esse fez uma cara tão horripilante que pensei: “Ai, ai, ai… Ele não gostou do sorvetinho de Tadeu”. 

E então? Oras… 
Ele me perguntou o que havia naquele sorvete. E eu, é claro, disse que não havia nada; que era um sorvete um tanto como os outros sorvetes.

Mas ai ele me perguntou de que sabor era aquele sorvete. E eu, sem saber o que responder disse: 

— Deve ser de abacaxi ou tamarindo! Não sei ao certo. 

E ele ficou ainda mais furioso, e me disse aos berros: 

— Seu imbecil! Do que adianta querer agradar a família, se não é capaz de escolher o sabor de um sorvete? Se compra um sorvete tão ruim quanto este? E isso não é tamarindo nem tão pouco abacaxi! Isso tem um gosto horrível e amargo, seu moleque! Você deve ter colocado alguma coisa ruim aqui de propósito, para zombar de todos nós. 

Quando ele disse “coisa ruim”, me deu uma vontade enorme de rir, mas me segurei.

— Eu? Meu querido pai, eu jamais faria isso, imagina, se eu iria colocar alguma coisa que eu soubesse que o senhor não aprecia, e dar-lhe para experimentar. 

E ele seguia cada vez mais bravo.

— Seu moleque safado, estou cansado de suas travessuras! Mas desta vez você me paga!

E eu dizia: 

— Pai! Eu juro que se tem alguma coisa estranha nesse geladinho, a culpa não é minha. Esse geladinho foi feito de Tadeu!

E nem assim ele acreditou, e ficou ainda mais bravo. 

— Ainda tem coragem de colocar a culpa em seu irmão que nem esta aqui? 

— Eu juro que não fiz nada! Tem que acreditar em mim! Eu sou inocente! Quero que este teto desabe sobre minha cabeça se eu estiver mentindo!

— Que teto seu imbecil? Estamos ao ar-livre. E não venha com essa conversa outra vez, de que não fez nada. Todos sabem que você é o culpado e ponto. E desta vez, farei com que pague o preço justo pelos seus atos.

— Ai! meu Deus… Agora ferrou de vez…

Se ele acreditou em mim? Claro que não! Ele me deu uma surra daquelas… 

O meu irmão? Eles acham que foi sequestrado, ou abduzido; mas na verdade, ainda tem um restinho dele lá na geladeira, pois como eu disse antes: ele não tem importância nenhuma nesta história; nem quiseram chupar o safado de tão ruim e insignificante que ele era… 

Mas o que é ainda pior que a surra, é o fato de meu pai, por pura birra, me obrigar a chupar um geladinho de Tadeu depois de cada refeição, até que eles se acabem.

Mas contudo, aprendi uma lição: Nunca conte mentiras. E se um dia for fazer sorvete de seu irmão mais novo, coloque bastante açúcar; assim, você evita de tomar uma surra, e de ser acusado injustamente.

Há! Já estava me esquecendo de dizer…

Outra vez, em que eu lhe contar uma história, e você me interromper tantas vezes como fez hoje, eu juro que lhe faço em pedaços. Mesmo que com isso, eu venha a ter “Sete anos de azar”.


Autor Convidado: Ricardo Altava





AONDE VAI O MEU DINHEIRO


Por sorte, ou talvez por hábito, mas, muito mais provável, por vício… Sim! Na verdade, acho que vício é o que caracteriza melhor esta minha loucura por livros.

Tem dias (Vários Dias; Quase todos os dias) em que acordo elétrico; sou ligado no 220. Durmo pouco, leio muito, falo muito, trabalho muito, toco muito (No sentido de tempo tocando. Antes que me atirem pedras); e como diz a minha querida Claudia: resmungo muito. Sou o eterno “Exagerado” em tudo. 

Esta sensação quase diária ao acordar, já não me é estranha; sensação esta de querer e querer, cada vez mais, comprar livros. Se não compro sofro. Doe-me o estomago, a cabeça, as costas; fico perturbado. Até que: vencido pelo desejo, vou até a livraria e compro! Para comprar livros eu sempre arrumo dinheiro. Para outras coisas… Deixa para lá. Arrumo qualquer desculpa para ir até uma livraria. Mas, a que mais uso, e é a que mais cola, é a de convidar a minha esposa para almoçar ou jantar fora. E por sorte, ou, um caminho pré-traçado por mim, sempre passamos em frente a uma livraria. Por um lado, acabo fazendo uma boa ação não só para a minha eterna busca por conhecimento, e pela minha satisfação em comprar um livro; mas, também, à minha amada esposa, que detesta cozinhar quase na mesma proporção que ama que eu a leve para comer em algum restaurante. O de sempre: (Mc Donalds). Eca… Na hora é bom, mas depois… Mas para comprar um livro vale o sacrifício. Vida de casado é assim: temos que encontrar boas desculpas para os gastos… Nesta vida, tudo é uma troca.

Quando coloco os pés em uma livraria, entro em um transe que me tira da realidade do mundo, e leva toda a minha curiosidade e desejo para dentro de cada um dos livros espalhados pelas inúmeras prateleiras. Fico louco. Em êxtase. Ando de um lado para o outro. Pego nas mãos, folheio, leio trechos, cheiro, observo atentamente inúmeros livros. E com muita cautela, escolho aqueles que “desta vez” farão parte de minha coleção, digo: “Desta vez”, pois naturalmente, voltarei para buscar os outros.

Não me recordo a última vez que comprei uma meia ou uma camisa. E também não me recordo a última semana que não comprei um livro, ou dois… Talvez mais. Hoje! Este dia que escrevo, comprei quatro. Neste mês foram doze.

Como todo apaixonado por livros, o melhor momento “Além do momento de comprar” é o de ler. Pegar nas mãos aquele volume tão bem escolhido; folhear as inúmeras páginas com cheiro de “Novo”; ler a contracapa; ler a sinopse; acaricia-lo. Por fim: escolher um local para a leitura. Confortável ou não, silencioso ou não, tanto faz; pois para quem gosta de ler, o que importa é o livro. Pare ler, devemos aprender a nos desligar do mundo. As vezes eu leio enquanto meu filho me faz de prancha de Surf, de saco de boxe, de colchão, entre outras invenções de sua fértil imaginação. Abrir as páginas de um livro e se deliciar com a leitura, é como nascer novamente a cada história. 

Como sou um comprador compulsivo, sempre tenho muitos livros para ler. Uma coleção enorme. E como acontece com os ricos, que por vezes não sabem para qual País da Europa viajar, ou qual carro usar naquele dia específico; com tantos livros, inúmeros livros, é difícil escolher qual ler primeiro. Mas é ai que toda a minha eletricidade faz justiça à minha falta de sono. Leio até sete livros por vez. E juro! Não me enrolo com as histórias. Não me pergunte como faço. Só sei que faço. Claro que mantenho uma certa organização. Tenho o livro de ler na minha sala; o livro de levar para a casa dos meus pais aos finais de semana; o livro de ler no quarto; o livro de ler no banheiro; o livro de ler de manhã; o de ler a tarde (Quando falta algum aluno, e fico com uma hora vaga); o de ler a noite, quando minha amiga insônia vem passar as suas horas vagas ao meu lado. Enfim: há livro para toda ocasião. De algum tempo para cá, entre tantos livros, eu comecei ler a Bíblia. Não para virar um tolo, ou um chato, e querer propagar as palavras de Deus a todo instante como muitos fazem, o que me incomoda e muito, mas sim, pela bagagem literária que a Bíblia nos trás. Ter um conhecimento profundo, para poder mandar à merda um imbecil metido a religioso, quando este falar bobagens. Ufa! Desabafei.

Todo livro tem a sua essência. Basta saber aproveitar.

Neste mundo, existem muitas pessoas apaixonadas por livros, não o suficiente, pois se houvessem mais leitores, haveria menos desgraça; mas ainda sim, há muitos. 

Tem aqueles que leem jornal, revistas, outdoors, cardápio de boteco, revista pornográfica, livro de receitas, prontuários médicos, bulas de remédio; e tem até aqueles que acham que bisbilhotar as atualizações do amigo no Facebook conta como leitura. De um tempo para cá, há aqueles que aderiram aos famosos e-books. Acho válido. O que importa é ler. Eu particularmente não gosto. Prefiro pegar o livro nas mãos. Dai vem parte da paixão. Ler um e-book deve ser como fazer sexo virtual, sem contato físico. Mas cada um na sua.

A magia contida nos livros é de suma significância e importância para o ser humano. Seja qual for o gosto: Romance; Ficção; Poesia; Contos; Crônicas; Gibis; ou, como diziam os antigos: “Revista de mulher pelada”. Não importa! Leia!

No mundo em que vivemos o livro chega a ser uma salvação! Pelo menos de algumas horas diárias.

Sou grato por ter um vicio bom. No qual, o único prejudicado é o meu bolso. 

Pois, é na compra de livros que gasto todo o meu dinheiro.


Autor Convidado: Ricardo Altava





PARABÉNS PELO SEU DIA



Você se lembra de quando nos conhecemos? Foi um começo de amizade muito conturbado... Éramos muito diferentes... Eu era muito jovem naquela época, devia ter por volta de uns nove ou dez anos, e você já tinha uma experiência de vida incalculável. 

No início, logo quando nos apresentaram, eu não lhe dei devida atenção, e para falar a verdade, eu te achei muito chato; eu te odiava, mas, por sorte, era com ódio de criança, aquele que não é eterno como o dos adultos, e que só faz mau para quem odeia, e nenhum mau para quem é odiado. Entretanto, se você pensar bem, eu tinha os meus motivos, pois, sempre era obrigado a estar com você, e não era algo que eu queria naquela época. Imagine só... Eu era apenas uma criança, e detestava as imposições da vida. No entanto, hoje eu confesso, que se desde o inicio, eu soubesse do tanto de experiência e coisas boas que nossa proximidade me traria nesta vida, tudo teria ocorrido de maneira bem diferente entre nós. 

Lembro-me de uma das vezes, já na minha pré-adolescência, em que fomos juntos ao meu dentista... Pegamos três conduções para ir e três para voltar, e juro que a obrigação de ter você por perto me deixava muito irritado, e durante todo o trajeto eu nem sequer olhei para você.  Isso porque dividíamos o mesmo banco! Como me arrependo...

Também me recordo muito bem, de certa vez, em que passei uma das maiores vergonhas da minha vida. Foi quando a pessoa que me recomendou (Impôs) a sua companhia, naturalmente achando que teria feito algo de meu agrado, e sem fazer a menor ideia do transtorno que era estar com você o tempo todo, me fez várias perguntas a seu respeito na frente dos meus amigos daquela época, coisas básicas, no entanto, como eu sequer olhava na sua cara, não pude responder a nenhuma. E além da vergonha que passei, pois, a maioria dos meus colegas sabia muito a seu respeito, esta pessoa me deu a maior bronca. Foi horrível. Mas, naquela época, eu não sabia nada sobre você, e nem queria saber. Foi uma fase rebelde de minha vida.

Entretanto, como nesta vida nada é eterno, por sorte, eu enxerguei a tempo o quanto você é valioso, e hoje se faz presente em minha vida em todos os momentos. É claro que vez ou outra, para tomar uma cerveja com outros amigos, ou fazer um passeio com a minha família, eu acabo-lhe deixando, mas, pode ter certeza do que lhe digo: Eu nunca deixo de falar de você, de comentar sobre as experiências que passamos juntos, e principalmente de enfatizar a todos, o imenso prazer que tenho de ter você como um de meus melhores amigos. Para ter uma ideia de quanto é importante para mim, a cerca de um ano, eu conversei muito com a minha esposa a respeito, e chegamos no consenso de que o meu amor por você teria de dar um passo a frente, e desde então eu venho-me preparando para colocar um filho no mundo, reunindo todas as suas melhores características, e todas as magníficas experiências  que você vem me proporcionando nesta vida.

E hoje, por tratar-se de um dia especial para você, eu lhe desejo a Eternidade! E que cada pessoa neste mundo, coloque você dentro de suas vidas e da vida de seus filhos. E que façam isso sem obrigação, mas sim, por amor. Enfatizando todo o benefício que você pode trazer a este mundo.

Fica aqui o meu sincero agradecimento a você, meu grande amigo.

Feliz dia do livro!



Autor convidado: Ricardo Altava


É MUITO DO QUE PRECISAMOS



Um tanto de confiança
Um tanto de esperança
Não faz mau a ninguém
É muito do que precisamos
Mas são poucos que tem


Um sorriso ao amanhecer
Dois sorrisos ao entardecer
Um anoitecer com alegria
É muito do que precisamos
Mas vemos tanta covardia


Um carinho para despertar
Um abraço para alegrar
A alegria de poder dividir
É muito do que precisamos
Mas muitos preferem trair


Sonhar acordado e flutuar
Acordar de um sonho e caminhar
Ser firme e forte para vencer
É muito do que precisamos
Mas muitos preferem sofrer


Fica a dica para quem entender
Um toque de leve para quem ler
Viver é mais fácil que interpretar
É muito do que precisamos
Pense! Pois, o que falta é Amar


Autor Convidado: Ricardo Altava