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UM POUCO DE LUCIMARA

Os belos e bem cuidados cabelos
longos  de Lucimara
caindo sobre a branca pele do ombro direito
talvez soprados pela delicadeza de um vento que não
queria soprar mas soprou
enquanto seus olhos namoravam  a vitrine de uma loja
de roupas indianas,  todas elas cheias de cores,
ou simplesmente branca,
ou simplesmente apenas azul
ou simplesmente apenas roupa
para um corpo que hoje ela diz não ser
tão bonito quanto antes
mas que afinal é o desenho definitivo
de uma beleza que se transformou,
redescobriu encantos que ficam por aí muitas vezes
procurando outras belezas em vitrines
que o completem
mas não completam
pois além dos cabelos de Lucimara
tem os lábios de Lucimara
as unhas sempre pintadas de  Lucimara
as pernas inevitavelmente sensuais de Lucimara
os pés, a pele, as mãos que devem conhecer
e guardam tantas formas de carícias
que muitos desejam e ficam imaginando quais,
além da risada meio moleque
e o andar quase criança
e mais ainda o jeito de sentar, falar, ouvir
talvez até cantar
e permanecer muitas vezes nua diante de si mesma
perguntando inutilmente o que falta
como se fosse possível alguma coisa faltar
onde tudo está completo,
mesmo que seus vinte anos já estejam longe
e brote nela sentimentos de estranheza
pelo tempo que passou mas que, mesmo passado,
deixou nela as marcas  principais do que é essencial,
coisa que não se vê com olhos comuns
nem distraídos
mas somente com a luz do encantamento
que não vem do sol
e de nenhuma estrela
e sim brota apenas da própria Lucimara,
sempre acendendo por inteiro o olhar
de quem a vê
diante de uma vitrine olhando roupas indianas
e passa desapercebido fingindo apenas olhar
os cabelos de Lucimara
mas olha para ver muito mais
e vê, inclusive,
que ela ainda não se deu conta
de que está vivendo do jeito que lhe
foi pedido viver
colocando um pouco de beleza em tudo
um pouco de sonho em tudo
um pouco de delicadeza em tudo
um pouco, enfim, de Lucimara em tudo.

Autor Convidado: Queniano 

Lucimara

Lucimara deve ter algum sentido de luz,
Mas não deve ser uma luz comum,
Dessas que brilham em qualquer lugar.
Deve ter algum sentido de luz ou partícula dessa luz,
Ou um raio dessa luz,
Ou a luz mesmo, inteira,
Brincando de ser vida,
Rindo contra as tristezas,
Amando contra o desamor,
Estreitando os braços no melhor abraço,
A boca nunca emudecida de palavras e beijos,
O rosto coberto de silencio nas horas mais noturnas,
Mãos sábias de todos os afetos e carinhos,
Enfim, Lucimara,
Quem mandou você nascer assim
Mulher e luz de todo jeito.
Autor Convidado: Queniano

O PRESENTE DE LUCIMARA

Você que poderia ganhar tanta coisa
vai ganhar agora de um sub poeta
um sub poema
como presente de Natal.

Talvez você quisesse
receber muito bem embrulhado um vestido
cujo tecido leve moldaria seu corpo,
acrescentaria elegância
e te deixaria exatamente como você é,
livre, como se não houvesse roupa
sobre o corpo
e sua alma desfilasse nua
de qualquer prisão ou mentira.

Quem sabe um livro, uma jóia, um quadro
de algum desconhecido artista rústico
e talentoso você preferisse ganhar.

Tantos presentes esperam por você
nas vitrines da cidade, ofertas do shopping
e nas muitas lojas. Basta pegar o cartão de credito
e se presentear a si mesma
ou aguardar a meia-noite e o entorno da mesa
onde muito abraço vai ser dado, beijos,
e repleto de muito carinho e revelações
um punhado de coisas, simples ou não,
que lhe serão dadas
e marcarão o momento.

Mas eu, mesmo que pudesse lhe dar
outra coisa, prefiro fazer de conta que sou poeta
e de algum lugar arrumar palavras
que sejam mais sinceras que um vestido,
um quadro, um cd, uma jóia...
Alguma palavra que seja luz e se dê bem
com o nome Lucimara. Alguma luz
que seja mais do que palavra
ou as duas coisas se fazendo numa só.

Eu, portanto, prefiro procurar pelo seu presente
em outro lugar e ficar
diante da tela do computador tentando
traduzir para o real
a Lucimara que tenho na memória,
sua imagem, o seu corpo, a sua voz,
os óculos que você mantém sempre sobre a testa,
os vestidos largos e estampados,
a sua impaciência com as coisas chatas,
seus poemas dependurados
na sala ampla de um casarão histórico,
e a sua ameaça, numa certa madrugada, de me negar sua amizade
se eu...

Eu prefiro me consumir nesse tempo
porque nele eu te procuro
para poder escrever sobre você
e aí eu vou, mesmo cheio de enganos, te achando aos poucos,
percebendo detalhes antes não percebidos,
imaginando como seriam os cabelos
se o penteado fosse outro,
como seria a boca se a cor do batom
fosse mais agressiva,
como seria seu corpo e que gosto teria
depois do sol e do sal da água do mar, enfim...

Tudo isso, mesmo parecendo muito, é tão pouco
porque você é mais complexa  que uma
tentativa de fazer um poema
e  mesmo que eu fosse um poeta de verdade
dificilmente eu saberia traduzi-la.

Na verdade, tentando fazer um poema
para presenteá-la no Natal,
o presenteado fui eu
nessa eternidade que passei pensando
em  quem conheço tão pouco
mas que já vale tanto
quanto vale uma dessas coisas boas e antigas
que a gente não sabia da existência
mas que existe,
como em algum desconhecido jardim
está a flor que não conhecemos
e nem sabemos da existência,
mas que é flor
é beleza
E só espera que a gente aprenda um dia a vê-la.
para finalmente existir para nós.


Feliz Natal!

Autor Convidado: Queniano