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MEU VALE

Moro onde os viadutos
ainda não cobrem
as montanhas – azuis

Moro onde as árvores
ainda se impõem, Resistentes,
mesmo que ordinariamente

Moro onde sinto o cheiro
da terra molhada
quando chove...
mesmo sendo asfalto

Moro onde as pessoas
ainda se cumprimentam
na rua
mesmo que com um sorriso 
apenas sorriso sincero
de caipira

Sorriso maroto
de criança suja descalça no chão

Sorriso matreiro
de moleque
achando que Sabe
Tudo
da vida

Moro onde o céu
ainda é azul
e as nuvens (pasmem): Brancas
Puras, Transparentes
Formando desenhos mil
Disformes

Moro onde as
Damas
da Noite
me fazem a Corte,
somente à noite
quando passo diante seu jardim
impingindo-me toda
com seu inebriante
perfume doce, irresistivelmente
Doce

Moro onde os pássaros,
quando neles penso,
me visitam fortuitos,
por entre minha janela aberta
e me abandonam logo,
assim como chegam e cantam
Cantam para mim!!!
e se vão
E aí tento aprender
(embora eu não precise permitir)
A deixá-los ir
Livres a voarem

Moro onde as cores gritam
em seu extraordinário silêncio
e em tudo parecem falar comigo

Moro onde ainda resta
um cadinho d’esperança

Moro onde a poesia em sua
extrema simplicidade
é imperfeitamente perfeita.

Convidada: Camila Lescura

LIBERDADE

Espaços vazios... fotos, garrafas, papéis
Criatividade voa longe,
E estes estão loucos por uma composição original
Quero ser criança... desprender-me da censura
Do senso realista e do senso ridículo

Quero voltar a arriscar, a falar bobagens,
E, no meio de tantas bobagens, ter uma idéia
Fantástica, Genial, Inteligível

Quero ter a coragem de uma adolescente,
A avidez de uma atriz,
A emoção de uma poetisa,
O raciocínio de um físico,
O dinamismo de um atleta.
E a versatilidade... ganhar de presente
Quero ser pintora e, como Tarsila,
Me manifestar sem medo de represálias ou críticas
Quero ser artista, astrônoma, modista

Quero me perder na vida e no conhecimento
E, como um garoto, sorrir ao ver uma pipa
Brincar na chuva e dormir no colo da vovó
Ouvindo suas histórias antigas

Quero correr na praia, sentindo a brisa
E entender, assim, o sentido da vida.


Convidada: Camila Lescura