RELÓGIO QUEBRADO NO CHÃO SEM CASA

Há Deuses e leite na manhã morna da velha fazenda
Maria, João e José
e tudo mais que se quebra e não se chora
e poetas do silêncio
e os evangelhos e os sertanejos e tantas outras letras

Tudo que se conhece de perto dói
Por isso nunca mergulho, sempre deslizo
Envelheço a cada amanhecer,
Chovo quando quero,
Em minha horta nasce tudo o que nunca crescerá

Logo ali, atrás de casa, no quintal...
Há o mesmo fogo que queimou as obras que inspiraram Camões
E quem liga?
Maria, Jacu, Jutão
E tudo mais que poderia ser
e engenheiros de rabiscos apagados por obras primas
e tudo o que é eterno, ali no passarinho que acabei de matar

Tenho pudor em ser eu mesmo
Penso demais para ser eu
E cada gota do desperdício que cai em idéias
Não são meus, são baldios
E vem a gagueira...

A lata de sardinha
Sem sardinha,
Barco pirata enferrujado
A buscar sardinhas
No mar trazido pela chuva

Se tudo que quisesse escrever
Escrevesse
Eu seria a cópia mal feita
Semi lúcida, semi acabrunhada
Meio que apagada
De algo que veio antes
De coisas perdidas

Mas é pior...

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